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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

25 ANOS DA PRIMEIRA EDIÇÃO DO ROCK IN RIO - MINHAS LEMBRANÇAS DO FESTIVAL


Em janeiro de 1985, eu tinha 8 anos de idade, e já era um garoto que amava Bealtes e Rolling Stones... sobretudo o primeiro. Mas também adorava AC/DC, Black Sabbath, Little Richard. Também já estava virando fã do Rock Brazuca de Barão e Paralamas.
Então com toda essa precoce paixão pelo Rock'n'Roll, seria muito natural que estivesse muito empolgado para o grande festival que iria acontecer. E não era qualquer evento não; se tratava do "Rock in Rio", dez dias de música e alegria.
Próximo ao Rio Centro, em Jacarepaguá, foi montada a "Cidade do Rock", com um enorme palco, com uma estrutura e casting nunca vistos na América Latina. Com atrações gringas (AC/DC, Yes, Queen, Ozzy Osbourne, Iron Maiden, Whitesnake, Rod Stewart, James Taylor, Scorpions, George Benson, Al Jarreau, The B-52's, Nina Hagen e The Go-Go's) e nacionais (Pepeu Gomes, Baby Consuelo, Rita Lee, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Lulu Santos, Gilberto Gil, Erasmo Carlos, Ney Matogrosso, Kid Abelha, Blitz, Ivan Lins, Moraes Moreira, Alceu Valença, Eduardo Dusek e Elba Ramalho).
Nessa época eu só pensava e respirava "Rock in Rio". Sonhava poder ver ao vivo Angus Young e compania, e poder pular e vibrar com "Shot Down In Flames" e "Highway To Hell" como fazia na sala da minha casa. Fiquei mais empolgado ainda ao saber que meu pai havia comprado com um amigo, ingresso para o dia 19, o "Dia dos Metaleiros" (Pepeu Gomes, Erasmo Carlos, Def Leppard, Ozzy Osbourne, Scorpions e AC/DC. O sonho virou frustração, quando perguntei se tinha comprado pra mim também, e ouvi a resposta: "Junior, criança não pode entrar no Rock In Rio...".
Isso não tirou meu interesse, devorava jornais e revistas, e sempre via na Globo os inúmeros flashes sobre o Festival com reportagens mostrando os operários montando o palco, entrevistas com as atrações nacionais, biografias das bandas estrangeiras, e notícias e curiosidades. Foi num desses flashes que fiquei sabendo que a banda Whitesnake foi convidada de última hora para substituir o Def Leppard, que desistiu em consequência do acidente de carro em 31 de dezembro de 1984 sofrido pelo baterista Rick Allen, que perdeu o braço esquerdo.
Nunca tinha ouvido falar no Def Leppard, mas já conhecia e gostava do Whitesnake graças ao Megahit no Brasil de "Love Ain't No Stranger" que tocava na propaganda do cigarro "Hollywood". Além disso, David Coverdale tinha o status de já ter sido vocalista do Deep Purple.
Finalmente no dia 11 de Janeiro de 1985, 300 mil pessoas aguardavam o começo do Rock In Rio. E coube ao grande Ney Matogrosso a honra de abrir o Festival. Eu passei o dia grudado na TV, a Globo cobria o evento com detalhes, mostrando trechos dos melhores momentos das apresentações, entrevistas com o público, curiosidades, e transmitia ao vivo o show da última atração da noite. Me lembro de dormir embaixo da mesa da sala, vendo Freddie Mercury e o Queen. Essa cena se repetiu durante toda semana, pois tentava sem sucesso, ficar acordado pra ver na íntegra os shows.
Assisti momentos antológicos pela televisão: Baby Consuelo grávida e de barrigão arrepiando ao lado do marido Pepeu Gomes; Iron Maiden, a então nova sensação do metal; Freddie Mercury regendo milhões de vozes em "Love Of My Life"; Rod Stewart fazendo parecido em "Sailing"; o endiabrado guitarrista Angus Young mostrando a bunda; Ivan Lins perdendo a voz e pedindo ajuda da galera pra cantar e sendo prontamente atendido; Ozzy Osbourne jogando baldes e mais baldes pra refrescar o público; Rita Lee sendo coroada a Rainha do Rock; as esquesitices de Nina Hagen; a consagração de Barão Vermelho e Cazuza; as vaias e latas jogadas em Eduardo Dusek, Erasmo Carlos e Kid Abelha; e o choro de James Taylor, comovido com a recepção calorosa da platéia.
James Taylor enfrentava grande problemas na época, com dependência de drogas e o divórcio de Carly Simon. Declarou que pensava em abandonar a carreira logo após o Festival, do qual participaria apenas por compromisso contratual. Mas se surpreendeu com a reação do público cantando e vibrando com suas músicas. Com isso decidiu que retomaria a sua carreira com força total. Em agradecimento, compôs "Only a Dream in Rio", com os versos "I was there that very day and my heart came back alive" ("Eu estava lá naquele dia e meu coração voltou à vida").
A banda brasileira que mais se destacou foi sem dúvida os Paralamas do Sucesso, que fez dois shows memoráveis. Haviam lançado o segundo LP "O Passo do Lui", e virou mania nacional, conquistado disco de platina, graças aos sucessos como "Meu Erro", "Romance Ideal", "Ska" , "Mensagem de Amor", e principalmente "Óculos", um dos hinos do Rock in Rio.
E por falar em hino, o Festival tinha o seu tema oficial composto por Eduardo Souto Neto e Nelson Wellington, e gravado originalmente pelo Roupa Nova. Todo mundo sabia a letra de cor, e cantava a pleno pulmões dentro e fora da Cidade do Rock.

No dia 19 de Janeiro de 1985, enquanto meu pai tentava falar com seu amigo pelo telefone pra combinar sua ida aos shows, eu já acompanhava na televisão os preparativos para aquela que chamavam de a "Noite dos Metaleiros", e noticiavam que Erasmo Carlos não iria mais tocar, que mudaria seu show pro dia seguinte, provavelmente com medo de sofrer problemas maiores do que na sua primeira apresentação. Sábia decisão.
De repente, meu progenitor, aquele que me deu educação musical e cultural, que me apresentou à grandes bandas, que me deu um violão e me ensinou os primeiros acordes, que me presenteou anos mais tarde com uma bateria; ele mesmo, meu pai veio com a notícia: "Pô, meu amigo viajou, não tenho mais compania pro Rock In Rio. Junior, quer ir comigo?"
É claro que eu queria. Fui tomar banho e me arrumei rapidamente e fiquei ansioso como se eu fosse tocar.
Ao ficar pronto fui me despedir da minha mãe, e começou a confusão: "Batista, você tá louco? Não vai levar uma criança de 8 anos no Rock In Rio, de jeito nenhum...". Aí comecei a chorar. Vendo isso, ele me acalmou e me deu a chave do carro, pediu que eu descesse e o esperasse, que ele iria convencer minha mãe e me encontraria. No carro, ouvia a transmissão ao vivo em que Pepeu Gomes abria a noite, aloprando na guitarra, agradando em cheio os metaleiros presentes.
Depois de um tempão meu pai apareceu e fomos pro Rock! No caminho ele ia passando as instruçoes de não aceitar nada de nenhum estranho, de não sair de perto dele, e de se alguém me perguntar a idade eu responderia "14 anos", que era a censura do Festival. Estacionamos no Rio Centro e fomos a pé até as bilheterias que ficavam nos portões da "Cidade do Rock". No caminho, uma mulher me falou: "Nossa, que lindo! Você gosta de Rock, Quantos anos você tem?", respondi: "Oito anos", esquecendo de uma das instruções que havia recebido.
Tentamos comprar o meu ingresso, mas não aceitavam cheques, e não tínhamos dinheiro em espécie. Meu pai teve a idéia de tentar entrar comigo abaixado atrás dele, mas fui barrado pelo rapaz da catraca que me viu agachado tentando passar pela roleta.
Então fomos na entrada da Área Vip, e meu pai explicou a um dos organizadores, que tinha só um ingresso, que precisava de mais um pro filho, mas só tinha cheques e que era especial e tudo o mais. Sensibilizado, o rapaz deixou que entrassemos por onde os Vips e convidados entravam. Vimos Elba Ramalho, Cazuza, Leda Nagle, e um monte de gente famosa.
Não perdemos muito tempo, e fomos direto pro palco. Chapei com a grandiosidade e com a luzes. Quando entramos deu só pra ouvir a última música do Whitesnake, e David Coverdale dizendo: "Obrigado Rio!!!". Fomos entrando no meio da galera, e ficamos num ótimo lugar pra ver o Ozzy, principalmente eu, que fiquei a maior parte do tempo nos ombros do papai.
Lembro que o show do Ozzy foi demais. Me impressionou muito a sua voz, principalmente com ele gritando com a galera. Durante a apresentação jogaram uma galinha viva no palco, Mr. Madman entregou o animal ao seu roadie, fazendo valer a cláusula do contrato que o proibía de comer qualquer tipo de animal vivo no palco, em virtude do famoso incidente em que Ozzy arrancou a dentadas a cabeça de um morcego num show em 1982. Quase no fim, descobri porque sua voz suava tão familiar, ao ouvir os primeiros acordes de "Iron Man": "Ué, Papai, essa música não é do Black Sabbath?"; aí ele me explicou que Ozzy era vocalista daquela banda que adorava.
Durante o intervalo fomos passear pelo Rock in Rio, que estava um verdaeiro lamaçal, resultado das fortes chuvas que castigaram a Cidade do Rock. Fomos nas lojinhas, e fizemos um lanche. Pedi pra ver o famoso chafariz, aonde vi pela televisão os roqueiros se refrescarem. Ao chegarmos nele, vimos que se transformou numa imensa banheira de barro e lama.
Conseguimos um ótimo lugar pra assistir aos Scorpions. Fiquei extasiado com a energia dos caras, e principalmente com os pulos altíssimos que davam. Jogavam seus instrumentos para o alto, e numa dessas um dos guitarristas se machucou, ao arremessar a guitarra, quando esta desceu bateu na sua cabeça e o cortou, o sangue escorria, e ele continuava sua perfomance como se nada tivesse acontecido. Um dos pontos altos da noite foi sem dúvida a balada "Still Loving You". O único problema é que estávamos lá especialmente pra ver o AC/DC, e o show dos alemães do Scorpions foi grande demais, e eu já estava manifestando os primeiros sinais de cansaço.

A banda utilizou uma guitarra com o formato do continente da America do Sul, parecida com a que está no logotipo do festival e com pequenas bandeiras do Brasil estampadas. Outro fato marcante foi vocalista Klaus Meine cantar "Cidade Maravilhosa" em português.
No intervalo conseguimos fcar bem perto do palco, e estávamos na expectativa pra ver a grande atração da noite. Mas do nada surgiu uma confusão, uma briga que fez abrir um clarão, e meu pai no intuito de me proteger, me pegou pela mão e correu comigo para longe. Resultado, acabamos ficando num lugar péssimo, muito longe do palco.
Enquanto não começava, pedi pra ir no banheiro, e aprendi a "técnica do copo", que consiste em pegar um copo plástico descartável, colocar discretamente o pênis dentro, e urinar. Mas éramos sem dúvida os únicos com essa preocupação, porque todos, inclusive mulheres, não tinham o menor pudor de mijar na frente de todo mundo; meninas se abaixavam e faziam xixi em qualquer lugar.
Infelizmente, vimos de muito longe o show do AC/DC, que na época era a minha banda predileta depois dos Beatles. Um casal nos emprestou binóculos, e íamos revezando.
O desânimo por estar num local pouco priveligiado, e principalmente o cansaço e o sono fizeram que fôssemos em bora logo depois de "Hell's Bells", aonde surgia um enorme sino, que fazia um barulho ensurdecedor acionado pelo vocalista Brian Johnson. Mais tarde fiquei sabendo que o sino era uma réplica de gesso feita às pressas para substituir o original, O aparato veio de navio, porém, era muito pesado para a estrutura do palco.
Tudo foi realmente inesquecível. Meus amigos não acreditavam no meu feito, e era obrigado a apresentar provas ou a chamar meus pais pra confirmar a história.
Também fui nas duas edições seguintes do Rock In Rio, em 1991 e 2001.
O empresário Roberto Medina deu declarações que voltará a fazer o evento no Brasil em 2011, exato dez anos depois da terceira edição.
Sinceramente, eu ainda não acredito, mas é claro que torço pra que seja verdade.

12 comentários:

  1. Morri de inveja! rsrs.
    Bela história, muito rica em detalhes...

    Bjs =)

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  2. Olá J.C, eu estive nas 3 edições do festival.
    Considero q a primeira foi a melhor pelo clima da epoca,saindo da ditadura.
    O texto é excelente, parabéns.
    Marcelo

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  3. Oi Marcelo, muito obrigado pela visita e pelo elogio.
    Concordo com vc, a primeira edição foi sem dúvida a melhor.
    Abraço

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  4. J.C. Batista Jr. Cara gostei desse artigo ou comentário com muitos detalhes. Escreveu muito bem me fez lembrar de coisas que fogem ao longo do tempo. O fato de ter ído ao Rock in Rio, foi o acontecimento mais marcante da época e até hoje não apareceu outro nem de perto. Estava trabalhando na Cia DOCASRJ e ninguém queria tirar férias em Janeiro devido as chuvas nessa época e me preparei para ir ao evento com segurança e conforto. Pois bem: Eu tinha um fusca zerado e na época esse caro era um luxo... Ehehehehe! Acabei com ele no decorrer dos 10 dias.
    Comprei uma cartela que custava uma graninha que não me lembro bem, mas comprei para assistir aos meus preferidos e venderia o resto. Fiquei assustado quando entrei no portão e o rapaz falou que eu não podia destacar os ingressos, teria que ir a todos os dias com a cartela... Adorei e achei uma merda, pois tinha bandas que eu não iria de jeito nenhum, mas foi super interessante ter ído a todos esses dias. Sou guitarrista e isso me ajudou bastante quanto ao preconceito musical.
    Gostaria de colocar duas coisas que marcaram muito, o Ozzy tinha essa fama de comer animais vivo. Li em uma revista que ele era vegetáriano e que um show feito com a banda tinha repercurtido mal, devido a um truque muito comum nos USA com as bandas do genero, o negócio era chocar a galera. Então o Ozzy abriu os braços de costas para um tunel onde passavam varios morcegos vivos e ele inha em sua mão um morcego feito de chocolate recheado com uma calda de morango. sem que o público notasse esse feito, ele fez um gesto como se tivesse pego um dos morcegos que voavam desarvoradamente em meio a confusão ele se deliciou de um gostoso chocolate com calda de morango. Ehehehehe!
    Acredito nesta versão, pois ele poderia ter pego uma doença séria!

    A outra foi o comentário geral que o mundo iria acabar pois estava previsto que haveria esta possibilidade, fazendo com que todos os dias uns bons outros bem complicado, lembrava e achava isso é besteira mas com cú na mão.
    Quando foi a entrada do Ozzy depois da Rita Lee que ao entrar em cena o tempo fechou e aí apareceram uma cambada de zumbis e nesse momento fugia eu e uma amiga da chuva e da confusão que se alastrava... Bicho ali foi foda!
    Encontrei um amigo meu do trabalho que nesse dia ele estava de serviço como segurança no Roc in Rio.e ao me ver passar gritou... Sergio Meireles!
    Fiquei sem entender muito e ele falou entra aqui rapaz e bateu na porta abaixo do palco e aí abriu-se as porta do paraízo. Estava no mundo mágico dos artistas, jornalistas, as pessoas da produção e etc. ele me guiou até o lado esquerdo do palco onde tive uma visão maravilhosa, pois estava um nível acima do palco e do alto via as pessoas que eram muitas se espremendo querendo ver o ídolo e no céu parecia o fim do mundo confesso que fiquei maravilhado em imaginar que poderia acontecer algo muito marcante e aconteceu. Foi o melhor show com uma vista maravilhosa. Lembro também que ao meu lado estava a lindíssima fátima uma amiga que tenho boas recordações.
    Meu caro amigo J.C. muito obrigado por ter criado este espaço, me fez voltar uma época que marcou e vai ficar por muitos anos essa marca de puro som, energia e paz.

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  5. Oi Sergio, obrigado pelos elogios.
    Seu depoimento foi muito bacana.
    Quanto a história do morcego do Ozzy, a que eu acho mais plausível, e inclusive assisti a uma entrevista do Ozzy contando, é de que havia morcegos de borracha que ficavam pendurados e passando pelo palco. Num determinado dia durante uma apresentação, um morcego de verdade sobrevoou o palco, Ozzy o agarrou pensando ser um dos falsos e mordeu sua cabeça. Depois disso foi obrigado a tomar injeções contra raiva...
    Mas sem dúvida é uma das lendas do Rock, que sempre existirão várias versões.
    Abração, e volte sempre ao Blog.

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  6. Oi Júnior,

    Tudo bem? Sou jornalista e vou fazer uma reportagem especial sobre o Rock in Rio. Estou em busca de pessoas com alguma história engraçada / marcante/ divertida / romântica ou inusitada com o Rock in Rio. Interessa dar entrevista? Faça contato que dou mais detalhes.

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    1. Acredito que tenho uma história muito boa.

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  7. Oi Piero, será um prazer ajudar.
    Abraço

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Oi Jr!!! Que legal que topou!!! Ainda hoje te mando um mail!!! Abços cara

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  10. Nossa! Quantos detalhes... *-*
    Cheguei a me arrepiar...
    Bjo, Liv

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  11. Sensível e engraçado!
    Destaque para a lembrança da música do (cigarro) Hollywood, para a belíssima história do James Taylor e para a saga que enfrentaram para chegar ao evento!
    Super pai esse Batista!

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