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quarta-feira, 28 de março de 2012

BAIXISTA DA LEGIÃO URBANA É MORADOR DE RUA

Acredito que muita gente viu a reportagem da Rede Record exibida no programa Domingo Espetacular, no último domingo (25 de março), que mostrou que Renato Rocha, o baixista original da Legião Urbana, é atualmente morador de rua.
Se vc não viu, confira:

Por mais que a reportagem seja sensacionalista (e a Imprensa hoje em dia normalmente é), não tem como não ficar impressionado e triste em ver a realidade que o músico hoje em dia vive. Rocha contou que perdeu tudo o que tinha devido às drogas. Ele participou dos três primeiros e melhores álbuns do Legião Urbana e é coautor de canções como "A Dança", "Ainda É Cedo" e "Mais do Mesmo".
Renato Rocha foi expulso da banda após o disco Que País É Este (1987) por causa de seus problemas com as drogas, segundo o guitarrista Dado Villa-Lobos. Hoje, os únicos pertences que ele leva consigo pelas ruas são guardados em uma sacola plástica. Outros mais valiosos, como um contra-baixo, ele deixa em um hotel de um amigo.
Com o olhar perdido, aparentando uma certa dificuldade na fala, Renato parece ser sombra do baixista dos Anos 80. Tive a impressão de que ele não está gozando da plenitude de sua saúde física e mental. O mais triste de tudo é o momento, na reportagem, em que a repórter pede pra ele pra tocar, por um segundo cheguei a pensar "a musica talvez ainda o salve". Renato pega o baixo e o resultado foi pedir desculpa, dizendo que tudo que é improviso é ruim, que com treino e ensaio as coisas melhoram.
Outro absurdo mostrado é o fato dele receber menos de mil reais por mês do ECAD, por seus direitos autorais. Como pode? Os 3 primeiros discos da Legião vendem muito até hoje, e recentemente saíram nas bancas de jornais em novas edições.
A repercussão da reportagem foi grande. Seu ex companheiro, o baterista Marcelo Bonfá usou o Twitter para explicar que, apesar das declarações de Renato, ele e Dado tentaram ajudar o ex-baixista. Bonfá relatou que foi bombardeado com ligações para esclarecer a situação, e disse:
"O que as pessoas não entendem é que ele já esteve nesta situação diversas outras vezes. Ele aparece e depois some por anos. Cheguei a encontrá-lo na Barra [da Tijuca], pegando onda, na boa. Fiquei chocado ao ver a situação dele, claro. Mas o que posso fazer? Lligar para o ECAD mandar o dinheiro direito para ele? As pessoas não entendem é que cada um é responsável pelo mundo que o cerca. Todo mundo carrega a sua cruz. Ninguém pode ajudar alguém, se essa pessoa não quer."Na verdade, o relacionamento dos ex integrantes da Legião nunca foi muito amistoso. Confira o que disse Renato Rocha aos jornalistas Luiz César Pimentel e Alexandre Petillo em 2002, em entrevista publicada na Revista Zero:
Renato Rocha - Entrevista (Revista Zero, nº 3, 2002)

ZERO: Você era da turma dos Skinheads, não?
RENATO ROCHA: Quando o punk começou a acabar, sobrou muito gayzola, muito playboy que se dizia punk. Eram aqueles caras que compravam calças Fiorucci, desfiavam e falavam que eram punks. Aí resolvemos ser cabeça raspada. A gente era uma equipe do terror, pra diferenciar dos punkzinhos gays.

ZERO: Quem eram punkzinho gay?
R.R: Os lambe-lambes (risos)

ZERO: Que a gente conhece, quem era?
R.R: Os dois lá, o Dado e o Bonfá, o Dinho, Philipe Seabra [vocalista e guitarrista do Plebe Rude], essa turma.

ZERO: Por que lambe-lambes?
R.R: Porque não faziam nada. Chegavam nas festas e ficavam bodeados num canto. Gostavam de Bauhaus e PIL. Eram fracassados. Os carecas chegavam chutando o teto.

ZERO: Qual foi seu primeiro contato com o Renato e o resto da banda?
R.R: Ah, a gente andava numa turma, ia pras festas. Tinha uma época que tinha umas cinco festas por noite. Festas de detonar, de barão. Pó, maconha à vontade. E não aparecia ninguém pra encher o saco. O mais fraco ali tinha seis Rolls Royces na garagem. Quem ia ter coragem de entrar pra dar uma geral?

ZERO: Como você entrou para a Legião?
R.R: Renato tinha cortado os pulsos em Brasília, estava na pré-produção do primeiro disco. Como ele tocava baixo, precisava de alguém para o lugar dele. Eu sabia todas as músicas, as letras. Entrei quatro dias antes do início das gravações. Acabamos virando a maior banda do Brasil.
Mas quando ficou cheio de grana, o Renato não queria fazer mais nada. Ficou muito chato, alcóolatra. Aí ele começou a chutar todo mundo, tratava todo mundo muito mal.

ZERO: Quando foi isso?
R.R: Foi no final dos 80. Ele tava inacreditável, tomou varias overdoses.

ZERO: Ele já não gostava de fazer shows?
R.R: Depois de encher o cu de grana, só gostava de encher a cara.

ZERO: Vocês eram amigos?
R.R: Não. A gente era conhecido. Amigo, não. A partir do momento em que o cara só se preocupa com ele mesmo... Só ele tem dor de cabeça, só ele tem enxaqueca, só ele tem problemas...

ZERO: Qual era o seu papel na banda? Você era apaziguador ou só chegava e tocava?
R.R : Eu fumava meu baseado inocente, tomava minha dose de uisque e ficava pensando: "cara, eu estou fazendo a melhor coisa do mundo: ganhando grana pra fazer música, e neguinho fica aí se lamentando à toa, reclamando do bife".
Eu aproveitei minha fase rock. Os caras não tinham atitude roqueira, não falava com a galera, esnobavam os fãs. Pra mim ficar na Legião era um sacrifício.

ZERO: Por que você acha que eles se sustentaram como banda tanto tempo?
R.R: O Renato gostava de homem bonitinho e chamou o Marcelo Bonfá e o Dado pa tocar. O Dado só entrou porque o Renato queria o nome Villa-Lobos na banda. Aí ele ensinou o Dado a tocar. E o Bonfá era um pilha fraca, não aguentava tocar um show inteiro, não ensaiava, não treinava, não malhava, não comia, era um merda.
Saia com a namorada, não queria pagar a conta e a menina pagava. Queria fumar um baseado mas não apertava, eué que tinha que apertar. Folgado e mão-de-vaca. É um cara muito babaca, nem a mulher dele aguenta ele. Era uma agonia, pois o cara não sabia tocar nada.

ZERO: E como foi sua vida depois da banda?
R.R: Eu tive uma fase ruim, fiquei em baixa. Namorei uma mulher errada e minha vida degringolou. Era uma mulher que só queria sacanear. Tipo Cleópatra. Fiquei muito alcóolatra, muito louco, tomava tudo.

ZERO: Mas o Dado dizia que você já detonava antes de sair da banda.
R.R: O problema do Dado é que ele não sabe nem escolher a roupa que vai vestir. A mulher dele é quem escolhe. Ele não sabe tocar, não tem personalidade própria. Ele é tão bundão que podia ter impedido minha saída. A gente ia para o mundo inteiro. Íamos pra Europa, ele bundou pra mulher dele. A mulher queria ter um filho e prendeu ele aqui. Ele botou pilha pra gente não gravar fora.

ZERO: Foi depois do terceiro disco?
R.R: Foi. A gente ia gravar em Portugal. Estava tudo certo. A Legião ia arrebentar e ele bundou. Ficou com medo da Fernanda. A mulher amarrava um lacinho no pescoço dele e ele saia na rua assim. Não representa nada para o rock brasileiro. Representa o gosto do Renato. E aí? Vai dizer que uma bicha daquelas era roqueiro? Em vez de comprar uma moto comprava uma lambreta. E ainda andava de lencinho. Como um cara desses pode dizer que é punk?
Eu saia, ia nas favelas, cheirava pó, ficava nas quebradas, pegava as putas. Ai o cara dizia que eu estava aloprando. Ele é que não aguentava a pressão. Eu pegava as gatas e passava na frente dele, o cara ficava com aquela carinha de bunda.

ZERO: Desde sempre eles tiveram essa atitude na banda?
R.R: Eu fiquei puto porque era um bando de cuzão com uma oportunidade de ouro nas mãos. Todo mundo falando bem pra caralho. Minha maior frustração é isso cara. Um cara do gabarito do David Byrne falando das possibilidades de sermos o maior sucesso do mundo e dois playboyzinhos babacas sacaneando.

ZERO: Foi o David Byrne que ofereceu a oportunidade de vocês gravarem lá fora?
R.R: Não, foi a gente que conseguiu. Éramos a melhor banda de rock n' roll do Brasil. Éramos.

ZERO: E você achava isso na época?
R.R: Eu achava uma das melhores do mundo. O Renato sabia cantar todas aquelas letras maravilhosas em inglês. O disco ia arrebentar. A gente ia ser o U2 e o Dado não deixou. Ou melhor, a mulher do Dado.

(...) ZERO: Ele (R.Russo) tinha uma atitude homosexual dentro da banda?
R.R: Tinha. Sempre teve. Pirava, ia lá e dava para o roadie. Mas é aquela história... Se o cara tem muito poder, ninguém fala a verdade.

ZERO: A legião perdeu a atitude rock com a sua saída?
R.R: Cara, rock exige uma certa agressividade. Rock não é para playboyzinho pasmo, tchutchuquinha. Dado tomava um copo de uisque e ficava bêbado. A Cracatoa Vermelha nem bebe.

ZERO: Quem é a Cracatoa Vermelha?
R.R: Bonfá(risos)(...)

ZERO: Quando foi a última vez que você falou com ele?
R.R:´Foi na gravação de Uma outra estação. Ele virou pra mim e disse: "eu estou igual a você". Pensei: "puta merda, fudeu" (risos)

ZERO: E o Dado?
R.R: Foi uma vez no ATL HAll. Ele pegou meu braço e disse: " Não fala mal de mim na imprensa não". Eu fiquei só rindo, porque o filho dele tava todo preocupado, com medo de eu dar porrada nele. O moleque ficava falando "pai, vamos embora"

ZERO: Você ainda voltou pra gravar esse disco póstumo (R. Rocha participou da faixa da gravação instrumental da faixa Riding Song, que foi sobre posta a uma gravação dos 4 integrantes feitas durante as gravações do disco Dois).

R.R: Gravei cara. Infelizmente eu gravei. Ganhei um barão [R$ 1000]. Aquele cara me ridicularizou. Mas eu estava precisando de grana.

ZERO: Você gastou toda a grana que ganhou na Legião?
R.R: Não, eu comprei carro, moto. Depois vendi tudo. E eu não ganhei tanta grana assim.

ZERO: Você foi ao enterro do Renato?
R.R: Não fui porque não sou cretino. Mas um dia passei com a minha namorada e a mãe do Renato estava no Burle Marx pra jogar as cinzas. Aí o pneu da moto furou bem na frente. Eu falei: "caralho, Manfredo, solta do meu pé". Mas eu sempre gostei do Manfredo, ele sempre foi uma pessoa muito sincera, só que ele se fodeu, cara, porque ficou com dois babacas.

ZERO: Quando você falou com Renato Russo pela última vez?
R.R: Falei pelo interfone. Ele não quís me atender. Toquei na casa dele e ele respondeu que tava de ressaca.

ZERO: O que você queria com ele?
R.R: Ah, sei lá. Perguntar como ele tava. Ele alucinava, tomava todas e subia na mesa,(...) Cansei de levar ele doidaço, babando no taxi. Mas aí como ele era mentor da banda e da juventude brasileira, mascaravam esse comportamento. (...)

ZERO: Como foi que você saiu da banda?
R.R: O Renato Russo saiu do elevador e falou: "Você está fora da minha banda". A gente ia assinar o contrato do Quatro Estações. Estavamos no prédio da EMI.
Ai eu falei pra ele: "Cara, se você me apontar o dedo eu torço seu braço". Fiquei na minha, puto, mas sabia que não era uma coisa do Renato. que era coisa dos dois perobinhas. O maior castigo é ter grana e não ser feliz. Eu tenho e sou feliz.

....

ZERO: E sua banda Cartilagem, existe a quanto tempo?
R.R: Uns três anos. Mas ainda não chegou a hora da banda. O público ainda não está preparado pras minhas letras. Minha música é pra libertar o jovem.

ZERO: Parou com as drogas?
R.R: Fumo meu baseado, tomo umas bebidas.

ZERO: E a legião ainda dá grana?
R.R: Não, dá uma miséria. Menos de mil reais por mês. Só que conversar com eles é tentar tirar leite de pedra. Eles são brancos, eu sou pele-vermelha.

ZERO: Já pensou em se candidatar a algum cargo público?
R.R: Opa, já. Prefeito de Mendes. O grande lance é entrar no esquema e não ser corrompido´por ele. Como eu entrei na Legião e não fui corrompido.

Entrevista concedida a Luiz César Pimentel e Alexandre Petillo, publicada na edição numero 3 da extinta Revista Zero, 2003.

4 comentários:

  1. Vi esta reportaqgem na Record, na segunda, de manhã. É impressionante como alguns artistas se destroem no mundo das drogas. O mesmo acontece com alguns atores, mas em alguns casos o problema, nem é a droga, é o esquecimento.É lamentável.

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  2. Oi Anônimo,
    na verdade isso também acontece com as pessoas que não são famosas. A diferença que choca mais qdo vemos uma celebridade passar por isso, pois não entendemos como alguém com fama, grana e família consegue chegar numa situação dessas.
    Só nos resta rezar para que Renato consiga superar tudo isso.
    Abraço

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  3. O cara fala mesmo, e acredito que seja tudo verdade, pois aqueles dois sempre fora meio viadinho mesmo...

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    1. Oi Markus,
      opção sexual não refelete caráter, não é mesmo?
      Abraço

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